Como a união entre poder público e sociedade civil poderá mudar o colapso causado pelo coronavírus?

Cenário

Em pouco mais de dois meses de evolução o novo coronavirus 2019 infectou mais de 100 mil pessoas em todos os continentes, matou quase 4 mil e mostra franca e vigorosa expansão fora da China. A questão central não é a taxa de mortalidade da Covid-19 (que tem variado em valores nada desprezíveis de 3 a 4%), mas a velocidade com que a mesma gera pacientes graves levando os sistemas de saúde a receber uma demanda muito acima de sua capacidade de atendê-la adequadamente.

Quanto mais casos um país possui, mais semelhante é o padrão de disseminação viral. A partir de 50 casos, por exemplo, Coréia do Sul, Irã e Itália mostram evoluções surpreendentemente semelhantes;

O novo coronavirus possui capacidade de se decuplicar (multiplicar o total de casos por 10x) a cada 7,2 dias – em média. Se extrapolarmos esta velocidade de multiplicação no cenário brasileiro, a partir do momento em que o Brasil possuir 50 casos, podemos chegar a mais de 4 mil casos em 15 dias, e cerca de 30 mil casos em 21 dias. Considerando esta projeção, podemos entender melhor o racional das medidas restritivas adotadas na China e agora na Itália.

Considerando as proporções de casos graves (10%) e críticos (5%), abaixo do relatado pela missão da OMS na China (2) (13,8% e 6,1%, respectivamente) e considerando tempos relativamente conservadores de internação destes casos (7 e 14 dias, respectivamente), o cenário Brasil pode chegar a precisar de cerca de 2100 leitos hospitalares, dos quais cerca de 525 em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), apenas nos primeiros 21 dias.

O cenário e riscos atuais exigem mudanças em nossas atitudes e ações. Precisamos estar preparados para oferecer respostas rápidas e coordenadas como Sistema, através de processos que suportem cooperação mútua.

Acreditamos que todos os gestores em saúde devem estar cientes e responsavelmente preparados para os piores cenários, evitando a disseminação de informações que possam levar pânico para a população e, sinceramente, esperando que os priores cenários não se tornem realidade.

Na estimativa do uso de leitos devemos avaliar a porcentagem de casos graves e críticos (que necessitam internação em leitos de enfermaria / quartos e de unidade de terapia intensiva), bem como o próprio tempo de permanência hospitalar. Não é de nosso conhecimento – até o momento – de publicação de uma série de casos robusta com os dados de permanência hospitalar descritos adequadamente. Neste caso, utilizaremos os seguintes pressupostos:



PLANO DE COMBATE AO CORONAVIRUS NO PIAUÍ ATUALIZADO EM 22/03/2020


ESTRETÉGIA DA REDE ESTADUAL DO PIAUÍ


A SESAPI determinou um fluxograma para o atendimento desses pacientes nos hospitais da rede estadual.

O HPM funcionará como um hospital "sentinela". Na prática, será um atendimento intermediário entre os pacientes que podem ir para casa e os pacientes que necessitam de ventilação mecânica.

Após o paciente sintomático procurar as unidades básicas de atendimento da FMS, caso haja indicação de internação para melhor suporte sem necessidade de ventilação mecânica, este paciente será encaminhado para o HPM via regulação estadual. Dessa forma, todo paciente encaminhado ao HPM irá através da regulação de leitos.

Ao chegar no HPM, ele será reavaliado por uma equipe médica de plantão composta por 2 integrantes.

Após a reavaliação da equipe de plantonistas do HPM, caso o paciente seja de fato internado, será encaminhado para a enfermaria. Serão disponibilizados 40 leitos.

Após a reavaliação da equipe de plantonistas do HPM, caso o paciente necessite de um suporte ventilatório, o paciente será encaminhado para o Natan Portela-HDIC ou HGV.

Também estão previstos 2 a 3 médicos prescritores destes pacientes internados sob a consultoria de infectologistas do Natan Portela-HDIC.

Também serão disponibilizados leitos de suporte no Centro Cirúrgico para os pacientes que necessitem de ventilação mecânica sob o atendimento de anestesistas.

Com relação aos treinamentos, deverão ser adotadas estratégias de tele-educaçãopara preparar materiais educativos e realizar as capacitações necessárias.

O governo estadual divulgará um decreto CONVOCANDO todos os médico estatutários que não se enquadram nos critérios de exclusão (acima de 60 anos e/ou doença crônicas), sob risco de penalidades previstas em lei para situações emergenciais como a que estamos vivendo agora.

A SESAPI também está contratando médicos em caráter de emergência. Esta contratação não vale para os médicos estatutários da SESAPI.

A cobrança da SESAPI é que esse atendimento se inicie a partir da manhã de segunda-feira.


ESTRATÉGIA DO MUNICÍPIO DE TERESINA


A Fundação Municipal de Saúde (FMS) está preparando o Hospital Dr. Miguel Couto, no bairro Monte Castelo, zona Sul da cidade para atender somente casos graves da Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. O local tem 50 leitos que serão exclusivos para estes pacientes.

A informação foi confirmada pela diretora de Assistência Especializada da FMS, Jesus Mousinho. A decisão foi acordada após uma reunião realizada para definir o plano de contingenciamento.

Além dos 50 leitos no Hospital do Monte Castelo, haverá também 40 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital da Polícia Militar e os demais já informados pelo Governo do Estado que são os de referência para atendimento como: Hospital Infantil Lucídio Portela, Hospital de Doenças Tropicais Natan Portela e Maternidade Dona Evangelina Rosa.

A Prefeitura de Teresina está locando 20 ventiladores mecânicos e 10 monitores cardíacos para se somar aos já existentes no hospital do Monte Castelo e auxiliar nos possíveis casos confirmados que precisarem de internação pelo município.

A Fundação Municipal de Saúde está aconselhando as pessoas que moram na circunscrição do hospital e à população em geral a procurar as unidades de saúde apenas quando for de extrema necessidade. Dez Unidades Básicas de Saúde vão funcionar até as 21 horas para atender casos de urgência e emergência e o hospital Monte Castelo.


ESTRATÉGIAS DA SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA


Nesse momento de crise, têm-se observado o surgimento de várias iniciativas de mobilização da sociedade civil organizada em apoio ao enfrentamento da pandemia do coronavírus. Dentre as já identificadas podemos citar:

1. Frentes para produção e aquisição de EPIs: devido à escassez e insuficiência de EPIs, vários grupos tem se mobilizado para produção artesanal de EPI’s como protetores faciais de acetato, aventais descartáveis e sapatos para doação aos profissionais de saúde. Exemplo

2. Frente para aquisição de ventiladores e equipamentos de suporte e monitorização: um grupo ligado ao Rotary Clube está se mobilizando através de doações para aquisição de ventiladores para doação aos hospitais da rede SUS.

a. Outras iniciativas nesse sentindo poderão ser autorizadas por uma nova medida do ministério da economia: “O ministério da economia abriu edital para pessoas físicas e jurídicas doarem materiais para prevenção e controle do coronavírus. Os materiais poderão ser entregues em qualquer lugar do país. O interessado deve incluir as informações sobre o produto ou serviço, anexar fotos e indicar se a doação é para um órgão específico (opcional). Ao finalizar, a oferta do doador será analisada pela Central de Compras do ME. Concluída a avaliação, o anúncio do doador será publicado automaticamente pelo Reuse e ficará disponível durante dez dias.”​ Fonte: Ministério da Economia

3. Frente de apoio à realização em massa de exames de detecção rápida do coronavírus: em apoio à medida anunciada pelo Presidente da República referente à aquisição e distribuição de testes rápidos, a sociedade civil está se mobilizando para apoiar e viabilizar a estrutura para possibilitar essa ação.

Pronunciamento no Twitter @jairbolsonaro (22/03/20)

“- O Governo Federal distribui milhões de testes rápidos de Covid-19 por todo o Brasil, a serem aplicados em pontos de fácil acesso à população. São aproximadamente 10 milhões de testes no total. Cinco milhões enviados para todos os estados ainda em março. Por meio de parcerias, como anúncios de empresários que cada dia se colocam mais a disposição para que juntos possamos minimizar os impactos do covid19, os testes rápidos poderão ser realizados em locais de fácil acesso, como farmácias, escolas e postos de drive-thru.

- As amostras são coletadas sem que o paciente saia do seu próprio veículo, uma estratégia adotada com sucesso na Coreia do Sul.”


ESTRATÉGIAS DO NÚCLEO DE TELESSAÚDE DO HU-UFPI


O Núcleo de Telessaúde, através de um projeto financiado pelo Ministério da Saúde (Departamento de Saúde Digital), implantará uma Central de Telemonitoramento Clínico para facilitar o rastreamento de casos e orientar profissionais de saúde e pacientes para o enfrentamento a síndromes gripais, em especial ao COVID-19, por meio de serviços de telessaúde (tele-orientação, teletriagem, teleconsultoria, telemonitoramento, telediagnóstico e tele-educação), e avaliar seu impacto nas medidas de contingenciamento precoces (redução do risco de transmissão, precauções de isolamento mais rápidas, indicar hospitalização em casos suspeitos graves), manejo de casos suspeitos e confirmados, e prevenção de surtos de infecção no Sistema Único de Saúde (SUS) no estado do Piauí, participando da força tarefa que atenderá aos estados de Pernambuco, Piauí, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte.

Especificamente, ao Núcleo de Telessaúde caberá:

Orientar a população e profissionais de saúde a respeito de medidas de contenção e mitigação com objetivo de prevenção de surtos e controle dos casos, baseado nas melhores evidências científicas e fontes oficiais do Brasil e do mundo;

Dar suporte aos profissionais de saúde do SUS, atenção primária, secundária e terciária na prevenção, diagnóstico e terapêutica, apoiando no manejo e conduta dos casos suspeitos ou confirmados;

Ampliar o acesso da população aos serviços de saúde por meio do monitoramento de casos suspeitos ou confirmados, se complementando à rede de atendimento presencial;

Dar suporte aos profissionais dos hospitais da rede estadual e municipal de saúde, sobretudo aos definidos como estratégicos no atendimento aos pacientes com casos suspeitos ou confirmados de coronavírus;

Dar suporte na identificação e direcionamento para realização de testes rápidos dos casos suspeitos que estão em ambiente domiciliar através de ações de teleorientação, reduzindo a circulação dos mesmos em unidades de saúde;

Contribuir para qualificar as notificações junto aos serviços de vigilância epidemiológica;

Analisar os impactos das práticas digitais de telessaúde para construção de uma estratégia de suporte contínuo a epidemias no âmbito do SUS;

Contribuir para o conhecimento a respeito do comportamento do vírus no país, bem como o rastreamento da transmissão dos casos confirmados e da circulação do vírus em nosso território.


Será realizado esforço conjunto com as equipes municipais e estaduais para introduzir o suporte do núcleo de telessaúde no fluxo de trabalho das unidades e profissionais de saúde. O acesso para profissionais e usuários do SUS (pacientes e população) será realizado por meio de canais específicos, preservando a confidencialidade e segurança de dados.


Com essa união entre os poderes públicos federal, estadual, municipal e sociedade civil organizada, além do apoio de cada um dos cidadãos, almeja-se que o Piauí possa dar um exemplo de combate ao coronavírus, apesar de todas as suas dificuldades econômicas, políticas e sociais.


Sigamos em frente Piauí!




Autor: Victor Eulálio Sousa Campelo

Coordenador do Núcleo de Telessaúde do HU-UFPI

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